Estudo mostra como linfomas em implantes de mama são mais frequentes em mulheres com mutação nos genes BRCA utilizando próteses texturizadas
A segurança das próteses mamárias é um tema que desperta atenção constante entre mulheres em diferentes circunstâncias. Nesse contexto, uma nova pesquisa trouxe informações adicionais sobre a relação entre alterações genéticas específicas e o risco de desenvolver linfomas em implantes de mama.
O estudo, publicado em setembro de 2025 na revista científica Blood Advances,examinou como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 podem influenciar o aparecimento de um linfoma anaplásico de células grandes, uma forma de complicação rara, porém importante.
O que é o linfoma anaplásico de células grandes associado a implantes mamários (BIA-ALCL)?
Antes de compreender os achados do estudo, vale a pena repassar alguns detalhes do que define essa alteração.
Na prática, o chamado linfoma anaplásico de células grandes associado a implantes mamários (conhecido pela sigla BIA-ALCL, derivada do seu nome em inglês) é um tipo raro de câncer do sistema imunológico que pode se desenvolver em mulheres com próteses de silicone.
Essa disfunção atinge especialmente as células T, que se tornam anormais e crescem de forma descontrolada.
O organismo mantém essas células em alerta para identificar e combater ameaças externas. Todavia, em alguns casos, a presença do implante feito de silicone pode desencadear uma resposta inflamatória crônica que culmina no desenvolvimento do linfoma.
As evidências científicas disponíveis indicam que essa complicação está relacionada principalmente aos implantes com superfície texturizada (ou rugosa). Esse tipo de prótese possui uma textura mais áspera, originalmente desenvolvida para reduzir a movimentação do implante dentro da mama e diminuir certos contratempos pós-operatórios.
No entanto, a superfície texturizada parece funcionar como um gatilho que estimula uma reação inflamatória persistente no organismo, favorecendo alterações celulares que podem levar ao linfoma.
Os sintomas mais comuns da condição, que geralmente aparecem anos após a colocação do objeto, frequentemente envolvem:
- inchaço da mama;
- dor.;
- presença de nódulos nas próprias mamas ou nas axilas;
- mudanças no formato da mama, causando assimetrias;
- coleção de fluidos (seromas) ao redor da prótese.
Embora seja uma condição rara, o BIA-ALCL requer atenção. Quando diagnosticado precocemente, há boas perspectivas para os resultados do tratamento,que geralmente consiste na remoção completa do implante e da cápsula de tecido ao redor, como reforçam as diretrizes mais atualizadas sobre o tema.
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De que forma os linfomas em implantes de mama estão conectados a alterações nos genes BRCA?
Os genes BRCA1 e BRCA2 são conhecidos por seu papel no aumento do risco de câncer de mama e ovário. Esses genes são responsáveis pelo reparo de danos no DNA das células.
Quando há mutações (herdadas de mãe ou pai) nesses genes, a capacidade de reparação fica comprometida, aumentando a probabilidade de desenvolvimento da enfermidade.
Em resumo, a pesquisa de meados de 2025 indica que mulheres portadoras de mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 apresentam risco maior de desenvolver BIA-ALCL quando utilizam implantes mamários, especialmente os texturizados.
Para chegar a essa conclusão, os autores do estudo reuniram dados de 3.500 mulheres que haviam sido submetidas a uma reconstrução mamária com próteses texturizadas. Elas fizeram isso depois de uma mastectomia conduzida como parte do tratamento de um câncer de mama.
Dentro desse grupo, 520 pacientes também tiveram os resultados de testes genéticos analisados, em busca de alterações capazes de aumentar a predisposição a um câncer. No fim, foi possível constatar que:
- entre as 3.500 mulheres com implantes texturizados, 11 tiveram casos de BIA-ALCL;
- no recorte de 520 mulheres que passaram por testes genéticos, 43 apresentavam mutações nos genes BRCA e sete desenvolveram um BIA-ALCL dentro de um período de acompanhamento médio de 11,5 anos;
- em paralelo, considerando toda a amostra, foi possível comparar 13 mulheres com implantes e BIA-ALCL a um grupo controle de 39 mulheres com implantes, mas sem BIA-ALCL.
A partir disso, os autores do artigo puderam constatar que mulheres com mutação no gene BRCA apresentaram uma probabilidade ajustada por idade 16 vezes maior de desenvolver o linfoma do que mulheres sem a mutação.
Quais são as implicações práticas desses resultados para a saúde das mulheres?
É importante ressaltar que, mesmo nesse grupo de maior risco, o BIA-ALCL continua sendo uma complicação rara.
Além disso, o estudo conta com amostras pequenas, o que pode afetar a confiança nos achados. Contudo, a identificação dessa conexão talvez seja um primeiro passo para orientar decisões médicas mais assertivas.
Para mulheres com mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 que planejam realizar reconstrução mamária após mastectomia ou cirurgia estética com implantes, os resultados reforçam a importância de discutir alternativas com seus médicos.
Opções como implantes de superfície lisa (que não apresentam o mesmo risco aumentado) ou técnicas de reconstrução autóloga (usando o próprio tecido da paciente) devem entrar na lista de considerações.
Outro ponto relevante é o acompanhamento médico. Mulheres portadoras dessas mutações genéticas que já possuem implantes texturizados devem manter vigilância redobrada, com consultas regulares e atenção especial a qualquer alteração nas mamas.
Para profissionais de saúde, os resultados destacam a importância de uma avaliação completa e individualizada. O histórico genético deve fazer parte da discussão sobre riscos e benefícios dos diferentes tipos de implantes mamários disponíveis.
Em resumo, embora os linfomas em implantes de mama continuem sendo uma complicação rara, o conhecimento sobre fatores de risco genéticos permite decisões mais informadas e acompanhamento adequado, sempre com o objetivo de garantir a segurança e o bem-estar das pacientes.
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