Uso da crioterapia na quimioterapia pode amenizar determinados efeitos colaterais em pacientes com câncer de mama
Um estudo apresentado na edição de 2025 do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) identificou como a crioterapia na quimioterapia foi consideravelmente eficaz na prevenção da neuropatia. Essa é uma técnica que consiste no resfriamento das mãos e dos pés utilizando mecanismos específicos.
Esse efeito colateral é um dos mais relevantes da quimioterapia, que muitas vezes persiste por meses ou até anos após o fim do tratamento. Nos tópicos a seguir, vamos entender melhor do que se trata essa condição e como essas e outras abordagens podem ser aliadas importantes.
O que é a neuropatia periférica induzida por quimioterapia?
A neuropatia periférica induzida por quimioterapia (CIPN, na sigla em inglês, ou NPIQ, em português) é uma das queixas frequentes entre pacientes com câncer de mama. Ela se manifesta principalmente naquelas submetidas a tratamentos químicos para destruir as células cancerígenas.
Os quimioterápicos utilizados são amplamente eficazes contra as células tumorais. Porém, eles podem causar danos aos nervos periféricos, aqueles responsáveis pelas sensações e movimentos nas extremidades do corpo.
A complicação tende a ser mais notada quando são utilizados fármacos da classe dos taxanos, como paclitaxel e docetaxel, tanto de modo neoadjuvante (antes da cirurgia) quanto adjuvante (depois da cirurgia). Entre os sintomas mais comuns estão:
- Formigamento ou dormência nas pontas dos dedos das mãos e dos pés;
- Dor ou sensação de queimação;
- Fraqueza muscular;
- Dificuldade de equilíbrio;
- Sensibilidade ao toque ou às mudanças de temperatura.
Sendo assim, a presença da neuropatia pós-quimio compromete diretamente a qualidade de vida das pacientes, interferindo na autonomia e em atividades cotidianas simples.
Além disso, a neuropatia é uma das principais causas de redução de dose ou interrupção precoce da quimioterapia. Tal necessidade pode comprometer o sucesso do tratamento oncológico.
Estudos anteriores, como uma revisão sobre o tema publicada na revista Pain em 2014, mostravam que 70% dos pacientes oncológicos experimentaram o quadro no primeiro mês de tratamento. Gradativamente, em três meses, a incidência caia para 60% e, em seis meses, atingia cerca de 30%.
Contudo, dados mais recentes mostraram que a neuropatia dolorosa atinge mais de 40% dos pacientes de forma persistente após 3 meses, como sustenta artigo de 2025 publicado na revista Regional Anesthesia & Pain Medicine.
Os dados são, portanto, um dos indicativos da relevância de estratégias de prevenção iniciadas antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
Como a crioterapia em mãos e pés pode prevenir a CIPN?
Em resumo, a utilização da crioterapia na quimioterapia consiste no resfriamento de mãos e pés durante a infusão do quimioterápico. Na prática clínica, são utilizadas luvas e meias capazes de ficar geladas antes do início da infusão, durante a sessão e por mais algum tempo depois do término.
O mecanismo de ação é relativamente simples. O frio provoca a constrição dos vasos sanguíneos, reduzindo o fluxo de sangue nas extremidades. Consequentemente, há diminuição da concentração do medicamento que chega aos nervos periféricos nessa região. Com menos exposição ao agente químico, os nervos ficam mais protegidos dos danos que levam à neuropatia.
O estudo apresentado no SABCS avaliou especificamente a tecnologia Hilotherapy. Esse sistema permite o controle preciso e contínuo da temperatura aplicada às mãos e aos pés durante toda a sessão de quimioterapia. Tal vantagem garante maior consistência na intervenção e conforto para a paciente.
Entre as aproximadamente 500 mulheres com câncer de mama que integraram o estudo e completaram a quimioterapia, mais de 90% das participantes não desenvolveram neuropatia periférica clinicamente significativa ao longo do tratamento.
Esses dados estão de acordo com outros estudos já realizados sobre o tema anteriormente. Uma revisão publicada no começo de 2025 no periódico Breast Cancer Research and Treatment mostrou que diferentes técnicas de crioterapia reduziram a incidência de neuropatia por conta dos taxanos em até 55%.
Outro trabalho, dessa vez apresentado no encontro da American Society of Clinical Oncology, mostrou que, em um grupo de 180 pacientes com câncer recebendo quimioterapia acompanhada da crioterapia na quimioterapia, mais de 90% não registrou sintomas ou teve quadros leves de neuropatia depois de um ano.
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Outros cuidados importantes no acompanhamento da neuropatia induzida por quimioterapia
Ainda que a crioterapia na quimioterapia represente um avanço relevante, ela tem pontos de atenção, que muitas vezes impedem seu uso. Eles envolvem o desconforto por conta das baixas temperaturas ou contraindicações em pacientes com problemas circulatórios.
Desse modo, o manejo adequado da condição neuropática envolve um conjunto de estratégias complementares. Nesse sentido, vale mencionar a diretriz publicada pela ASCO (American Society of Clinical Oncology) no Journal of Clinical Oncology em 2020, que revisou sistematicamente as melhores evidências disponíveis sobre prevenção e tratamento da CIPN em adultos sobreviventes de câncer. Os dados desse documento apontam que pode ser importante:
- Avaliação regular e ajuste da dose do quimioterápico, com monitoramento ativo da neuropatia ao longo de cada ciclo de tratamento;
- Prescrição de medicamentos para manejo da dor já instalada, ainda que os benefícios possam ser moderados conforme cada caso;
- Exercício físico supervisionado, uma vez que movimentar o corpo pode ser bastante benéfico na prevenção e no manejo desses sintomas;
- Cuidados com segurança e prevenção de quedas, pois a dormência e a fraqueza nas pernas aumentam consideravelmente o risco de acidentes;
- Atenção com suplementação. A diretriz da ASCO é explícita contra o uso de acetil-L-carnitina e aponta que as evidências sobre o uso de substâncias como vitamina B12, ômega-3 e magnésio são limitadas.
Ou seja, a crioterapia na quimioterapia é mais uma opção no contexto de atenção global. Mas, acima de tudo, é essencial que cada paciente tenha um plano de cuidado individualizado, discutido com a própria equipe assistencial. Assim, é possível minimizar a neuropatia periférica, uma das queixas que mais impactam a adesão ao tratamento e a qualidade de vida durante e depois da terapia oncológica.
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