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Reconstrução mamaria utilizando gordura

Lipoenxertia e a segurança da reconstrução mamária com enxerto de gordura

Após o tratamento do câncer de mama, muitas mulheres buscam alternativas para restaurar o volume e a aparência das mamas. Entre as opções disponíveis, a reconstrução mamária com enxerto de gordura (também chamada de lipoenxertia) é uma técnica relevante.

Em resumo, essa abordagem utiliza a própria gordura da paciente para remodelar a mama, oferecendo resultados naturais e, em muitos casos, evitando a necessidade de implantes.

Mas como funciona esse procedimento? Em que situações ele é indicado? E, principalmente, a técnica é segura do ponto de vista oncológico? Esses e outros pontos são esclarecidos nos tópicos abaixo.

Entenda o que é a reconstrução mamária por meio de lipoenxertia

Conforme dados compilados e publicados na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, quase 40% dos procedimentos do tipo no Brasil têm função reparadora. Nesse total, mais de 6% são relativos à recomposição das mamas como parte de um tratamento de câncer de mama.

Entre as alternativas disponíveis com tal finalidade, a lipoenxertia consiste em retirar gordura de áreas doadoras do próprio corpo da paciente (como abdômen, quadris ou coxas) e transferi-la para a mama que precisa de reconstrução ou remodelação. O cirurgião responsável realiza o procedimento seguindo algumas etapas:

  • a primeira é a lipoaspiração, em que a gordura é retirada de regiões com excesso de tecido adiposo, sempre preservando a viabilidade das células de gordura;
  • a segunda fase envolve o processamento e a injeção do material. Após ser coletada, a gordura passa por um processo para separar as células viáveis;
  • posteriormente, o tecido adiposo é injetado cuidadosamente na mama em pequenas quantidades, distribuídas em múltiplas camadas para garantir melhor integração ao local que está recebendo o enxerto.

Todo o procedimento é feito sob anestesia geral. Como complemento, o médico pode orientar a paciente sobre a necessidade do uso de expansores teciduais antes e depois do procedimento para ampliar o tecido disponível na região.

Situações em que a abordagem pode ser empregada no contexto oncológico

Cirurgiões utilizam a reconstrução mamária com enxerto de gordura em diferentes cenários do tratamento oncológico. Entre as situações mais comuns estão:

  • correção de irregularidades após cirurgia conservadora, que pode deixar assimetrias ou contornos irregulares na mama;
  • reconstrução após mastectomia, combinada com outras técnicas, como retalhos de tecido ou expansores, para otimizar o volume e a forma da mama;
  • complemento à reconstrução com implantes e refinamento de reconstruções prévias, sobretudo de mulheres que não ficaram satisfeitas com o resultado alcançado.

É importante ressaltar que nem todas as pacientes são candidatas ideais para o procedimento. A técnica requer planejamento cuidadoso, material doador disponível do próprio corpo da mulher e, em muitos casos, múltiplas sessões para alcançar o resultado desejado, pois parte da gordura transferida pode ser reabsorvida pelo organismo.

Eventuais intercorrências depois de uma lipoenxertia

Embora a lipoenxertia seja segura e minimamente invasiva, ela pode desencadear algumas complicações, como qualquer procedimento cirúrgico.

A necrose gordurosa é uma das mais comuns. Ela ocorre quando parte da gordura enxertada não recebe suprimento sanguíneo adequado. Isso pode formar pequenos nódulos palpáveis, dor e alterações na pele e nos mamilos.

Ainda que geralmente benignas, elas precisam ser diferenciadas de outras alterações suspeitas por meio de exames de imagem (como mamografias e ultrassons). Lesões menores do tipo somem espontaneamente, mas as maiores podem exigir um novo procedimento cirúrgico para remoção.

Inflamações, infecções, sangramentos e a formação de cistos oleosos são outras queixas relevantes. Em algumas áreas, a gordura líquida pode se acumular, exigindo drenagem para solucionar a questão.

Por conta do já destacado processo de reabsorção, podem ocorrer ainda assimetrias ou irregularidades na superfície da mama.

Evidências que apontam para a segurança da reconstrução mamária com a gordura

De modo geral, os especialistas apontam que a lipoenxertia é capaz de melhorar tanto a forma quanto o volume da mama, criando resultados mais naturais ao toque e à aparência. Com isso, a paciente tem ganho relevante de autoestima, um aspecto essencial para a qualidade de vida depois do tratamento oncológico.

Embora dúvidas sobre como a reconstrução mamária com enxerto de gordura interfere no risco de recorrência do câncer de mama sejam comuns, é possível apontar estudos que demonstram que ela não aumenta os riscos.

Lipoenxertia e risco de recorrência

Exemplo disso é umapublicação de 2018 do periódico JAMA Surgery. O estudo comparou 287 pacientes com câncer de mama submetidas a reconstruções mamárias com transferência autóloga de gordura e 300 casos controles equivalentes em fatores como idade, tipo de cirurgia oncológica e estágio da doença.

Após seguimento médio de 9,3 anos, não houve diferença significativa nas taxas de recorrência locorregional (ou seja, na mesma parte do corpo em que a doença apareceu originalmente).

Também não houve diferenças em recorrências distantes. Além disso, a mortalidade geral e específica por câncer de mama foram menores no grupo que fez a lipoenxertia, confirmando a segurança oncológica em longo prazo.

Já uma revisão sistemática publicada em 2024 pelo Journal of Clinical Medicine analisou 40 estudos com 14.078 pacientes com câncer de mama reconstruídas, avaliando o impacto da transferência de gordura na recorrência locorregional.

Os resultados da meta-análise mostraram ausência de associação significativa entre ambos os eventos (ou seja, a escolha pelo enxerto de gordura não favorece um novo episódio de câncer de mama no mesmo local).

Em contrapartida, apesar dessas evidências, é fundamental que a paciente mantenha acompanhamento oncológico regular após a lipoenxertia. Exames e avaliações periódicas são essenciais para monitorar a saúde mamária e diferenciar alterações benignas relacionadas ao enxerto de possíveis sinais de recorrência.

Adicionalmente, a decisão pela lipoenxertia deve ser sempre individualizada, levando em conta as características da paciente, os tratamentos complementares recebidos e, principalmente, as expectativas e preferências pessoais.

Confira agora o que são as técnicas de cirurgia oncoplástica mamária e que vantagens essas abordagens propiciam

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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