Preciso retirar a prótese das mamas mesmo sem sintomas? Saiba mais sobre os riscos de cada cenário
“Preciso retirar a prótese das mamas?”. Essa é uma das perguntas que circulam com cada vez mais frequência entre mulheres que fizeram um implante mamário. O tema ganhou ainda mais relevância nos últimos anos, impulsionado por relatos nas redes sociais, alertas sobre modelos de próteses texturizadas e o crescente debate em torno da chamada breast implant illness (doença dos implantes mamários, em tradução livre), entre outras complicações. Por isso, vale a pena entender por que essa questão surge com tanta frequência e o que as principais evidências e diretrizes médicas dizem a respeito.
Por que a necessidade da retirada das próteses mamárias é uma preocupação entre muitas mulheres?
Em certa medida, esse cenário é o resultado de dúvidas legítimas. Um fator que contribui para essa preocupação é o linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário (BIA-ALCL, na sigla em inglês). Trata-se de um tipo raro de linfoma que acomete as células ao redor da prótese. Estudos associam esse risco principalmente a implantes com superfície texturizada, em especial os macrotexturizados.
De acordo com dados reunidos pela American Society of Plastic Surgeons (Sociedade Norte-Americana de Cirurgiões Plásticos ou ASPS, na sigla em inglês), estima-se que o BIA-ALCL tenha uma taxa de incidência que varia entre 1 em cada 3.800 e 1 em cada 30.000 mulheres portadoras desse tipo de prótese. Até maio de 2025, a entidade havia registrado, em todo o mundo, pouco mais de 1.618 relatos de casos.
Apesar de pouco comum, o BIA-ALCL motivou uma ação regulatória relevante: em 2019, como medida de precaução, a FDA (equivalente nos Estados Unidos à Anvisa) solicitou o recall de uma linha de implantes texturizados, diante do número crescente de casos documentados.
Além disso, outra condição entrou no radar das discussões: a já mencionada BII (ou doença do silicone”). Trata-se de um conjunto de sintomas sistêmicos, entre os quais se destacam fadiga persistente, dores articulares e musculares, névoa mental e queda de cabelo. A BII não é um diagnóstico médico formal, mas tem sido objeto crescente de pesquisa e acompanhamento clínico.
Há ainda outras complicações bem documentadas, como a contratura capsular, a ruptura do implante e quadros de infecção.
Dependendo do grau de comprometimento, essas condições podem de fato indicar a necessidade de remoção cirúrgica. Somados, esses fatores criaram um ambiente de incerteza que, sem orientação adequada, pode levar a decisões precipitadas em um sentido ou no outro.
Que fatores devem ser levados em conta antes da decisão de retirar a prótese?
Não existe uma lista de critérios que se aplique a todas as pacientes da mesma forma. O processo de avaliação é necessariamente individualizado. No entanto, algumas categorias de análise são reconhecidas pelas principais entidades médicas como essenciais para orientar a tomada de decisão:
- Tipo e superfície do implante: próteses texturizadas carregam risco estatisticamente maior de BIA-ALCL em comparação com as lisas. A origem e o modelo específico do implante são informações relevantes para a avaliação de risco.
- Presença ou ausência de sintomas: mulheres sintomáticas (com edema persistente, dor localizada, assimetria nova ou nódulo palpável na região do implante) devem buscar avaliação imediata. Esses podem ser sinais de complicações que requerem investigação e, eventualmente, intervenção cirúrgica.
- Integridade do implante: a ruptura de implante de silicone é uma indicação médica absoluta para a remoção.
- Grau de contratura capsular: casos graves, classificados como III ou IV, com deformidade visível, dor e endurecimento expressivo, podem justificar a remoção cirúrgica.
- Sintomas sistêmicos persistentes sem outra causa identificada: revisão sistemática publicada em 2025 com dados de 7.000 pacientes constatou que 49% das portadoras de implantes autorrelataram sintomas compatíveis com BII, e parte delas relatou melhora relevante após a remoção do dispositivo.
- Contexto emocional, histórico cirúrgico e objetivos pessoais: assim como ocorre na escolha da técnica cirúrgica em outras situações clínicas, a decisão pela retirada deve considerar o impacto esperado na imagem corporal, as condições de saúde gerais da paciente e as expectativas para o pós-operatório.
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Retirar a prótese das mamas mesmo sem sintomas faz sentido?
Autoridades de saúde dos Estados Unidos convergem em um ponto: tanto o FDA quanto a ASPS não recomendam a remoção profilática de implantes texturizados em pacientes assintomáticas.
Isso significa que para aquelas que não apresentam sintomas e têm exames de acompanhamento normais, a retirada preventiva não é indicada de forma automática ou generalizada.
Em 2024, um painel de especialistas convocado pela American Association of Plastic Surgeons (AAPS) publicou recomendações baseadas em evidências sobre como implementar acompanhamento adequado diante de qualquer risco de BIA-ALCL. O documento indicou que, em caso de risco elevado, a remoção profilática de implantes macrotexturizados pode ser considerada razoável.
Contudo, o FDA reafirmou que, dada a raridade do BIA-ALCL, a remoção profilática de implantes texturizados não é recomendada em pacientes assintomáticos. A agência ponderou que a cirurgia de retirada não é isenta de riscos e que esses perigos precisam ser considerados diante de um benefício ainda incerto para quem não apresenta sintomas.
Apesar do painel de especialistas, a American Society of Plastic Surgeons (ASPS) adota posição alinhada à da FDA e também não recomenda amplamente a remoção para pacientes sem sintomas.
Apesar disso, mulheres nessa condição que mesmo assim desejam retirar a prótese das mamas devem conversar com seus médicos. O que pode ser razoável em um caso específico, por conta do tipo de implante, do histórico clínico ou de sintomas presentes, pode não fazer sentido para outra mulher.
Entenda agora como fatores genéticos e o tipo de implante podem influenciar o risco de linfoma associado ao implante.