Entenda quando a retirada da cápsula no explante é realmente necessária

Profissional de saúde apresenta próteses mamárias para paciente em ambiente clínico. Tela exibe ilustrações anatômicas.

Entenda quando a retirada da cápsula no explante é realmente necessária

Ao decidir pelo explante, muitas pacientes chegam ao consultório com uma dúvida específica: além do implante, é preciso remover também a cápsula que se formou ao seu redor? A resposta depende de fatores clínicos individuais, como o estado da cápsula, o motivo da retirada da prótese e o histórico cirúrgico de cada mulher.

Esse é um dos pontos que mais gera confusão no processo de explante, sobretudo diante da ideia, cada vez mais difundida, de que remover tudo é sempre a opção mais segura. Neste conteúdo, vamos abordar os detalhes sobre os diferentes tipos de capsulectomia e, principalmente, quando essa etapa realmente se justifica.

O que é a cápsula que se forma ao redor do implante?

Toda vez que se insere um implante de silicone no corpo, o organismo reage produzindo uma camada de tecido fibroso ao seu redor. Essa é a chamada cápsula periprotética, uma resposta natural do sistema imunológico à presença de um corpo estranho.

Em condições normais, a cápsula é fina, elástica e não causa sintomas. Ela apenas envolve o implante, ajudando a mantê-lo posicionado. O problema surge quando esse tecido se torna espesso, endurecido ou contraído, alterando a forma da mama e, em alguns casos, causando dor.

Também vale destacar que a cápsula pode acumular alterações inflamatórias, calcificações ou, mais raramente, lesões associadas a linfomas que, em sua maioria, estão relacionados a implantes texturizados.

Qual a diferença entre explante simples e a capsulectomia?

O explante simples consiste apenas na remoção do implante, mantendo a cápsula intacta no local. Já a capsulectomia envolve a retirada, total ou parcial, desse tecido fibroso que se formou ao redor da prótese. Na prática, isso significa que nem toda retirada de implante inclui a remoção da cápsula.

Em geral, quando a cápsula está saudável, fina e sem sinais de alteração, muitos cirurgiões optam por preservá-la, já que sua retirada implica uma dissecção mais extensa, maior tempo cirúrgico e, consequentemente, maior risco de sangramento e de complicações na cicatrização.

Leia também: Silicone pode causar câncer de mama? O que se sabe sobre o assunto?

Como é feito cada tipo de capsulectomia?

Quando o cirurgião indica a retirada da cápsula, ele pode realizá-la de diferentes formas, cada uma com uma finalidade específica. O Consenso da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos e da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética define a existência de quatro tipos de procedimento do gênero:

  • capsulectomia parcial: remove-se apenas uma porção da cápsula, geralmente a área mais espessa ou alterada. O restante do tecido tende a ser reabsorvido pelo organismo ao longo do tempo;
  • capsulectomia total: toda a cápsula é removida, ainda que em fragmentos ou em uma única porção de tecido;
  • capsulectomia total intacta: é a remoção completa do implante mamário e da cápsula de tecido cicatricial como uma unidade única e fechada, minimizando a contaminação dos tecidos pelo silicone;
  • capsulectomia en bloc: o implante e a cápsula são retirados juntos, como uma unidade única, sem que a prótese seja aberta durante o procedimento, mas com uma margem de tecido saudável.

Quando normalmente o médico indica a retirada da cápsula?

De forma geral, a capsulectomia costuma ser considerada nos seguintes cenários:

  • contratura capsular de graus mais avançados, quando a cápsula está endurecida e alterando visivelmente a forma da mama;
  • ruptura do implante, principalmente de próteses de silicone, para reduzir o risco de extravasamento do material para o tecido adjacente;
  • suspeita de alterações na cápsula, incluindo espessamentos atípicos ou achados de imagem que justifiquem investigação, com envio de material para análise anatomopatológica;
  • implantes texturizados com sintomas ou diagnóstico confirmado de BIA-ALCL, situação em que a capsulectomia en bloc é formalmente recomendada.

Uma revisão publicada em 2020 na revista Annals of Plastic Surgery, que analisou 57 estudos sobre o tema, reforça esse raciocínio: a capsulectomia costuma ser indicada para contratura capsular sintomática, mas diversos autores recomendam deixar tecido capsular fino no lugar quando não há sintomas.

A remoção en bloc, segundo os autores, tende a ser indicada apenas em casos de BIA-ALCL (Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado a Implante Mamário), sem evidências que justifiquem a abordagem como medida preventiva em pacientes assintomáticas.

Fora desses contextos, a preservação da cápsula pode ser perfeitamente segura, especialmente quando a paciente não apresenta sintomas e o tecido se mostra saudável ao exame.

A contratura capsular muda o planejamento do procedimento cirúrgico?

A presença de contratura capsular altera diretamente a estratégia cirúrgica porque o tecido endurecido pode estar aderido à musculatura ou à parede torácica, exigindo uma dissecção mais cuidadosa para reduzir riscos.

Além disso, o grau da contratura orienta a extensão da capsulectomia. O cirurgião pode abordar quadros mais leves com a retirada parcial da cápsula, enquanto precisa remover todo o tecido nos casos mais avançados.

Por isso, a equipe deve avaliar a paciente antes da cirurgia, muitas vezes com apoio de exames de imagem, para definir a conduta mais adequada antes mesmo de ela entrar no centro cirúrgico.

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Por que mais cirurgia não significa mais segurança para a paciente?

Não é raro se deparar com a noção de que remover a cápsula inteira, preferencialmente en bloc, seria sempre a opção mais segura no explante. Contudo, isso não encontra respaldo nas evidências disponíveis.

Um dos maiores equívocos nesse tema é acreditar que retirar tudo é sempre a opção mais segura, quando a conduta ideal é aquela que oferece o maior benefício com o menor risco possível.

Um levantamento americano publicado em 2022 no Aesthetic Surgery Journal Open Forum, que analisou mais de 2.200 capsulectomias registradas entre 2015 e 2018, identificou a contratura capsular e a ruptura do implante como as indicações mais comuns do procedimento.

O artigo reforçou que, embora seguro na maioria dos casos, o procedimento carrega riscos próprios, como sangramento e necessidade de reoperação, proporcionais à extensão da dissecção.

A revisão citada anteriormente vai na mesma direção. Ela sustenta que, para a grande maioria dos casos, a remoção completa e indiscriminada da cápsula não traz benefício comprovado adicional e pode, inclusive, aumentar riscos desnecessários.

Em síntese, o ponto principal é que o cirurgião deve considerar o estado real da cápsula, o motivo da remoção da prótese e o histórico da paciente ao decidir sobre a retirada da cápsula no explante. A conduta ideal não é a mais extensa, mas sim a mais adequada a cada circunstância.

Aproveite e confira também o que esperar do antes e depois da cirurgia de explante de silicone.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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