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Mão feminina com infusão por gotejamento na sessão de tratament

Entenda por que a quimioterapia no estágio inicial do câncer de mama nem sempre é necessária

A notícia de um diagnóstico de câncer de mama traz consigo uma série de dúvidas, e certamente uma das mais frequentes diz respeito ao tratamento. De qualquer modo, quando o tumor é descoberto precocemente, a quimioterapia no estágio inicial do câncer de mama pode ser dispensada sem impactos negativos.

Isso é possível uma vez que há recursos para avaliar a biologia da doença e determinar quais pacientes realmente se beneficiarão dos medicamentos, permitindo uma abordagem individualizada com maior precisão.

O que define um câncer de mama em estágio inicial?

Quando falamos em câncer de mama em estágio inicial, estamos nos referindo, grosso modo, aos estágios 0, I e II da doença. Nessas fases, o tumor ainda está restrito à mama ou, no máximo, atingiu poucos linfonodos próximos. Como destaca a Sociedade Norte-Americana do Câncer, esses casos apresentam:

  • Estágio 0: as células cancerígenas permanecem confinadas aos ductos mamários, sem capacidade de invasão de outros tecidos.
  • Estágio I: tumores de até 2 centímetros que não se espalharam para os linfonodos.
  • Estágio II: o tumor pode medir entre 2 e 5 centímetros ou ter comprometido alguns linfonodos axilares.

Embora forneçam informações importantes, cabe ressaltar sempre que o estadiamento, por si só, não determina a necessidade de quimioterapia. A biologia tumoral (ou seja, as características moleculares do câncer) desempenha papel decisivo nessa escolha, como destacamos no tópico seguinte.

Por que a biologia do tumor é tão importante quanto seu tamanho?

Nem todos os cânceres de mama se comportam da mesma forma. Existem diferentes subtipos moleculares, cada um com características próprias que influenciam tanto o prognóstico quanto a resposta ao tratamento. As diferenciações englobam:

  • Tumores luminais A e B, que são positivos para receptores hormonais (estrogênio e progesterona) e negativos para HER2.
  • HER2-positivo, onde há presença aumentada da proteína HER2, que estimula o crescimento celular.
  • Triplo-negativo, que não apresenta receptores de estrogênio, progesterona ou HER2. Tende a ser mais agressivo e não responde a diversas opções de tratamentos.

Num exemplo bastante resumido, a classificação molecular poderia indicar que um tumor pequeno e triplo negativo pode demandar tratamento quimioterápico, enquanto um tumor Luminal A de tamanho similar, porém de baixo risco, pode prescindir dessa modalidade sem prejuízo para o bem-estar da paciente.

Quais benefícios a quimioterapia pode oferecer no estágio inicial do câncer de mama?

A principal finalidade de regimes quimioterápicos adjuvantes (realizados depois da cirurgia) ou neoadjuvantes (antes da cirurgia) é eliminar células tumorais que possam ter se espalhado para além da mama, mas não sejam detectáveis em exames de imagem.

Esse é o que os médicos chamam de tratamento sistêmico, que aumenta as chances de recuperação ao mesmo tempo em que reduz o risco de recidiva.

No entanto, a quimioterapia também pode causar efeitos colaterais significativos. Os mais relevantes são:

Dessa forma, quando um tumor tem baixo risco (em geral, por conta da proliferação celular mais lenta e resposta a outros tratamentos), pode haver pouco benefício na adição da quimioterapia.

Nessas situações, evitá-la significa poupar a paciente de efeitos adversos desnecessários sem comprometer o resultado oncológico.

Qual o papel dos testes de assinatura genômica na decisão sobre quimioterapia?

Para determinar com maior precisão quais pacientes realmente precisam de quimioterapia no estágio inicial do câncer de mama, a medicina dispõe de testes que analisam a expressão de múltiplos genes no tecido tumoral. Os principais testes disponíveis no Brasil são o Oncotype DX e o MammaPrint.

Oncotype DX

Avalia a expressão de 21 genes e gera um escore de recorrência que varia de 0 a 100 para prever o risco de o câncer retornar nos próximos 10 anos e indica o benefício potencial da quimioterapia.

Um estudo sobre o tema apontou que cerca de 70% das mulheres com escore intermediário (entre 11 e 25) podem ser poupadas da quimioterapia com segurança, especialmente se tiverem mais de 50 anos.

MammaPrint

Analisa 70 genes e classifica os tumores em dois grupos: baixo risco ou alto risco de recorrência. Diferentemente do Oncotype DX, pode ser aplicado em qualquer tipo de câncer de mama invasivo de estágio inicial (I ou II), independentemente do status hormonal ou HER2.

Publicação do New England Journal of Medicine mostra que o recurso permite evitar quimioterapia em cerca de 46% das mulheres com alto risco clínico, mas baixo risco genômico, mantendo taxas de sobrevivência consideráveis.

O que é descalonamento e por que ele vem se tornando uma abordagem cada vez mais adotada?

Tudo isso converge para o fato de que a oncologia tem adotado cada vez mais o conceito de descalonamento terapêutico, uma estratégia que visa utilizar o tratamento mínimo necessário para alcançar a cura. Esse conceito se aplica não apenas à quimioterapia, mas também à cirurgia e à radioterapia.

No contexto do câncer de mama em estágio inicial, o descalonamento pode apontar para abordagens tais quais como:

  • Dispensar a quimioterapia quando os testes genômicos indicam baixo risco de recorrência.
  • Reduzir o número de ciclos ou a intensidade da quimioterapia, com regimes mais curtos.
  • Optar por cirurgias conservadoras sempre que possível, preservando a mama sem comprometer a segurança oncológica.
  • Evitar o esvaziamento axilar completo em pacientes com poucos linfonodos comprometidos, realizando apenas a biópsia do linfonodo sentinela.

Leia também: Quimioterapia antes da cirurgia pode evitar radioterapia nos linfonodos axilares

O descalonamento não significa subestimar a doença e nem dizer que a quimioterapia é inútil, mas sim tratá-la de forma inteligente e individualizada. O norte para a tomada de decisão envolve um equilíbrio delicado entre segurança e qualidade de vida, que deve ser alcançado por meio de um diálogo aberto entre médicos e pacientes.

Por isso, quem recebeu um diagnóstico de câncer de mama em estágio inicial deve buscar consultar o especialista sobre a necessidade de testes genômicos e sobre as diferentes opções de tratamento disponíveis para o seu caso específico. A decisão compartilhada, baseada em informações precisas e atualizadas, é sempre o modo mais eficiente de enfrentar a doença.

Para saber mais sobre o mapeamento das assinaturas genômicas dos tumores de mama através dos testes disponíveis, leia este outro conteúdo disponível por aqui.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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