Mindfulness e câncer de mama: prática pode ampliar qualidade de vida de sobreviventes da doença

Mulher meditando na sala de estar

Mindfulness e câncer de mama: prática pode ampliar qualidade de vida de sobreviventes da doença

O caminho após o diagnóstico e o tratamento de um tumor nas mamas envolve não apenas a recuperação física, mas também a reconstrução do bem-estar emocional, social e psicológico. Nesse contexto, pode haver uma conexão relevante entre técnicas de mindfulness e câncer de mama.

Não por acaso, vários pesquisadores vêm explorando como tais formas de autocuidado e a conexão com o momento presente têm se mostrado aliadas importantes.

Isso é o que buscou demonstrar um estudo apresentado na edição de 2025 do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS), que reuniu evidências justamente a respeito dos benefícios para a qualidade de vida de quem superou a doença.

O que é o mindfulness?

Mindfulness, ou atenção plena, é uma prática de meditação que envolve direcionar a atenção de forma intencional para as experiências do momento presente, sem julgamento. De acordo com a American Psychological Association (APA), essa técnica pode ser compreendida a partir de dois componentes principais: atenção e aceitação.

  • A atenção envolve sintonizar-se com as próprias experiências para focar no que acontece no momento presente. Isso geralmente implica direcionar a consciência para a respiração, os pensamentos, as sensações físicas no corpo e os sentimentos que estão sendo vivenciados.
  • Já a aceitação implica observar esses sentimentos e sensações sem julgamento. Em vez de responder ou reagir automaticamente aos pensamentos ou às emoções que surgem, a proposta é notá-los e deixá-los ir.

Com origem em práticas orientais (que não necessariamente se vinculam a uma expressão religiosa), o conceito foi introduzido na medicina ocidental por meio de programas estruturados como o Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR, ou Redução de Estresse Baseada em Mindfulness) e o Mindfulness-Based Cognitive Therapy (MBCT, ou Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness). De modo geral, ambos integram as técnicas de atenção plena com estratégias da terapia cognitiva.

Alguns dos benefícios dessa prática já foram registrados em outros estudos sobre o tema. Uma meta-análise publicada em 2017 noJournal of Psychiatric Research demonstrou que a meditação mindfulness regular promove alterações mensuráveis em marcadores fisiológicos do estresse.

Esses marcadores surgem justamente quando o corpo se encontra cronicamente tenso, com reflexos em diversos quadros de saúde. Ao diminuir essa resposta, o mindfulness potencialmente gera efeitos positivos em cadeia por todo o organismo.

O que o estudo destacado demonstra sobre esse recurso entre mulheres com câncer de mama?

O estudo da edição de 2025 do SABCS avaliou a eficácia de intervenções baseadas em mindfulness na qualidade de vida de sobreviventes de câncer de mama.

Conduzido por pesquisadores brasileiros, trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise. Com essa abordagem, os autores reúnem e consolidam as evidências mais recentes sobre o tema, oferecendo um panorama robusto a respeito do que se sabe sobre o assunto.

Assim, o trabalho considerou 13 ensaios clínicos com 1.942 mulheres (sem problemas psiquiátricos prévios ou experiência com mindfulness) e comparou essas práticas com cuidados padrão, mostrando melhora pequena, mas significativa, na qualidade de vida.

Apesar da diferença pequena, a evidência é de baixa certeza devido a variações entre os estudos disponíveis e à falta de casos mais avançados entre as amostras analisadas.

Apesar disso, os autores ressaltam que, como o mindfulness é acessível e econômico, ele pode ser um recurso relevante nos cuidados entre as sobreviventes. Seja como for, há sempre a necessidade de mais pesquisas para entender melhor como e de que forma a técnica funciona.

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De que forma esses resultados reforçam as ações necessárias na promoção da qualidade de vida nessa fase da vida?

Os achados dessa meta-análise se alinham a um movimento mais amplo na oncologia: o de reconhecer que o cuidado não termina com o tratamento. Para as sobreviventes de câncer de mama, a jornada frequentemente inclui desafios como:

Nesse cenário, o mindfulness se apresenta como uma estratégia não farmacológica, acessível e centrada na paciente. Ele não substitui tratamentos convencionais, mas os complementa, oferecendo ferramentas para que a mulher se torne agente ativa no seu processo de recuperação.

Além disso, investir na qualidade de vida das sobreviventes traz retornos no longo prazo. Um estudo publicado noJournal of Clinical Oncology acompanhou mais de 2.200 mulheres com diagnóstico de câncer de mama e demonstrou que a qualidade de vida após o diagnóstico e no período de sobrevida tem impacto direto no prognóstico da doença.

Depois de uma média de acompanhamento de 4,8 anos, as mulheres com os melhores marcadores de bem-estar social apresentaram 38% menos risco de mortalidade e 48% menos risco de recorrência em comparação àquelas com os menores números.

Esses dados sugerem que intervenções que fortalecem o suporte social, as relações interpessoais e a sensação de pertencimento podem não apenas melhorar a experiência da paciente, mas também influenciar resultados clínicos importantes.

Por fim, a prescrição de mindfulness no câncer de mama pode ser uma recomendação tão valiosa quanto a orientação sobre atividade física ou alimentação saudável, inclusive para contribuir para melhores desfechos oncológicos.

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Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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