Saiba como intervenções que promovem o emagrecimento em pacientes com câncer de mama podem gerar benefícios

Médica informando paciente com obesidade sobre os riscos

Saiba como intervenções que promovem o emagrecimento em pacientes com câncer de mama podem gerar benefícios

A relação entre o peso corporal e um quadro oncológico vai muito além da estética. Há décadas, vêm se acumulando evidências de que sobrepeso e obesidade são fatores de prognóstico negativo bem estabelecidos nesta doença. Desse modo, o emagrecimento em pacientes com câncer de mama pode ter impacto real nos desfechos obtidos.

Diante disso, um estudo apresentado na edição de 2025 do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) chamou atenção ao revelar trajetórias dinâmicas de perda de peso a partir de uma intervenção digital. Por isso, exploramos o que esse e outros dados relevantes sobre o tema têm evidenciado.

Por que o excesso de peso corporal pode impactar negativamente no prognóstico do câncer de mama?

A associação entre obesidade e piores desfechos no câncer de mama é bem documentada. Uma metanálise de 82 estudos publicada nos Annals of Oncologydemonstrou que mulheres com algum nível de obesidade ao receberem diagnóstico de câncer apresentaram aumento de 35% na mortalidade específica pela doença e de 41% na mortalidade geral quando comparadas àquelas com peso normal.

Além disso, a cada cinco unidades a mais no índice de massa corporal (IMC), o risco de morte total sobe 17% antes do diagnóstico, 11% logo após e 8% depois de um ano; para morte por câncer de mama, o aumento chega a 29% no longo prazo.

Como reforça a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sobrepeso é o estado em que o IMC se encontra entre 25 e 29,9. Já a obesidade é considerada um patamar superior a 30. O número é obtido por meio de um cálculo simples: o peso em quilos dividido pelo quadrado da altura em metros. Ou seja, IMC = peso (kg) / altura x altura (m).

Seja como for, os mecanismos pelos quais o excesso de gordura corporal exerce esse efeito são múltiplos. Entre os mais destacados estão:

  • A forma como o excesso de tecido adiposo promove um ambiente inflamatório crônico;
  • A associação entre obesidade e desregulação da insulina, que estimula a proliferação de células tumorais e inibe a morte dessas células;
  • A produção de estrogênio pelo tecido adiposo, especialmente relevante em mulheres na pós-menopausa. Esse excesso hormonal pode alimentar tumores com receptores positivos para o hormônio.

Além de afetar os mecanismos biológicos, o excesso de peso interfere nas terapias utilizadas, podendo dificultar a realização de cirurgias e reduzir a tolerância ao tratamento. Tudo isso reforça que abordar o peso corporal é parte integrante do cuidado oncológico e nunca um detalhe secundário.

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Intervenções para o emagrecimento em pacientes com câncer de mama e resultados obtidos

Os dados apresentados no SABCS 2025, coletados por meio do estudo BWEL, demonstraram o uso de ferramentas digitais como suporte à intervenção necessária para a perda de peso.

Para isso, os pesquisadores acompanharam 3.180 mulheres com câncer de mama em estágios mais avançados (II-III) e peso acima do ideal (IMC igual ou maior que 27), recém-tratadas com quimioterapia e/ou radioterapia. Pouco mais da metade passou pela intervenção (que incluía o uso de aplicativos e balanças digitais de alta precisão) enquanto o restante não passou por ela.

No grupo que recebeu 42 ligações telefônicas ao longo de dois anos, com orientações específicas sobre dieta, exercícios e outros hábitos de saúde, houve uma curva descendente da massa corporal dos participantes. Em princípio, o peso médio caiu de 91,4 kg para 85,6 kg em dez meses (queda de 6,1% do peso inicial), ficou estável por mais dois meses e, após dois anos, terminou com redução de 4,4% (87 kg).

Contudo, os resultados não foram homogêneos: enquanto 68% perderam cerca de 6,6% no pico de redução do peso corporal, 22% não perderam peso e uma pequena parcela (2,2%) chegou a ganhar 2,2%. Os autores indicam que os resultados variaram conforme o quadro clínico da paciente, seus hábitos e fatores demográficos.

As medições obtidas por meio dos dispositivos eletrônicos mostram que aplicativos e balanças digitais funcionam bem em acompanhamentos a distância. De qualquer forma, mais do que os resultados em si, o estudo demonstrou a viabilidade do monitoramento digital em larga escala no contexto oncológico.

Além disso, os resultados obtidos são clinicamente relevantes. A perda de peso promovida pelo programa pode ser importante para a obtenção de melhores prognósticos no controle da doença e até mesmo na redução do risco de recidiva, o que precisa ser acompanhado no longo prazo.

Como médicos e pacientes devem abordar esse tema ao longo de todo o tratamento?

Apesar das evidências crescentes sobre a relevância do controle do peso corporal, este ainda é um tema frequentemente evitado nas consultas oncológicas, seja pelo receio de constrangimento, pelo foco nas urgências do tratamento ou pela percepção equivocada de que não há muito a fazer nesse sentido. Os dados do estudo apresentado são mais uma amostra de como o cenário pode mudar.

Para médicos, a recomendação é abordar ativamente o controle da massa corporal desde o diagnóstico. Isso não significa pressionar a paciente com cobranças estéticas, mas sim contextualizar o peso como parte do cuidado oncológico integral.

A conversa deve incluir a avaliação do IMC, a discussão sobre riscos específicos para aquela paciente e o encaminhamento para equipes multiprofissionais (nutricionistas, educadores físicos e psicólogos) sempre que for julgado pertinente.

Para as pacientes, é importante compreender que o ganho de peso durante o tratamento é algo comum, por diversos fatores, entre eles:

Reconhecer isso sem se culpabilizar é o primeiro passo. O segundo é buscar suporte qualificado. Além disso, o acompanhamento do peso não deve se encerrar com o término da quimioterapia ou da radioterapia. A atenção com a balança deve ser encarada como uma estratégia contínua de prevenção de recidivas e de promoção da qualidade de vida.

Acima de tudo, médicos e pacientes devem ter em mente que atuar sobre o emagrecimento em pacientes com câncer de mama é factível. E, com abordagem adequada, deve ser um aspecto central no manejo oncológico.

Para se aprofundar ainda mais no assunto, confira agora qual a influência da cirurgia bariátrica na redução do risco de câncer de mama.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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