Reposição hormonal em pacientes BRCA+: intervenção não aumenta risco de câncer de mama, mostra estudo

Mulher lendo a bula do hormônio

Reposição hormonal em pacientes BRCA+: intervenção não aumenta risco de câncer de mama, mostra estudo

Um trabalho apresentado noSan Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS)e subsequentemente publicado no Journal of the National Cancer Institute,no final de 2025, trouxe um achado que pode mudar a forma como médicos e pacientes encaram a reposição hormonal em pacientes BRCA+.

Apesar de essa ser uma decisão difícil, os responsáveis pelo estudo sustentam que ela não aumenta o risco de câncer de mama em mulheres portadoras de mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2. Além disso, formulações com estrogênio isolado se mostraram associadas a um risco significativamente menor da doença nessa população.

No entanto, para compreender o peso dessa conclusão, é importante entender o contexto em que ela se insere e de que modo esses resultados interferem no dia a dia de médicos e de pacientes.

Por que a relação entre reposição hormonal e câncer de mama é uma preocupação?

A discussão em torno da terapia de reposição hormonal (TRH) e do câncer de mama é antiga. Em 2002, o estudo Women’s Health Initiative (WHI) apontou que a terapia combinada de estrogênio e progestina estava associada a um risco maior de câncer de mama e a riscos mais expressivos de complicações cardiovasculares.

Isso levou à inclusão de alertas nas bulas de produtos hormonais nos Estados Unidos, os chamados “alertas de caixa preta“. As advertências só foram reformuladas em 2025, mais de duas décadas depois.

Essa cautela, embora compreensível à luz dos dados disponíveis na época, acabou privando uma parcela significativa de mulheres de um tratamento eficaz para sintomas que comprometem seriamente a qualidade de vida.

Quando se fala especificamente em reposição hormonal em pacientes BRCA+, o cenário ganha outra dimensão. Mulheres com variante patogênica em BRCA1 ou BRCA2 apresentam risco elevado de desenvolver câncer de ovário. Por isso, frequentemente, elas são orientadas a realizar a retirada bilateral das trompas e dos ovários (chamada de salpingo-ooforectomia bilateral) em idade relativamente precoce.

Essa cirurgia é uma das estratégias de prevenção mais eficazes disponíveis, mas tem um efeito colateral inevitável: ela induz a menopausa precocemente, e essa condição, quando não tratada, traz consequências de longo prazo para a saúde. As mais relevantes incluem:

  • Fogachos intensos;
  • Alterações gastrointestinais;
  • Mudanças de humor e disfunção sexual;
  • Perda de densidade óssea;
  • Prejuízos à saúde cardiovascular;
  • Redução da capacidade cognitiva.

Em outras palavras: a mesma estratégia que reduz o risco de câncer pode gerar um conjunto expressivo de consequências. E, historicamente, o medo de aumentar o risco de câncer de mama impedia o uso da TRH justamente nas mulheres que mais precisariam dela.

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O que o estudo diz sobre esse risco em pacientes BRCA+?

O trabalho aqui citado inicialmente, conduzido por pesquisadores canadenses e europeus, adotou um método chamado de análise prospectiva.

Em termos práticos, em vez de simplesmente comparar mulheres que usaram reposição hormonal com mulheres que não usaram de forma aleatória (o que poderia gerar distorções, já que os grupos poderiam ser muito diferentes entre si), a equipe formou duplas cuidadosamente combinadas.

Cada mulher que usou TRH foi “emparelhada” com outra que não usou. Ao mesmo tempo, elas tinham perfis muito semelhantes: mesma faixa de idade, mesma mutação (BRCA1 ou BRCA2) e mesma situação cirúrgica. Isso permite que a comparação seja mais justa e que os resultados reflitam, de fato, o efeito da reposição hormonal. No fim, foram identificadas 676 duplas de mulheres com média de idade de 43,8 anos.

Os resultados apontam que o uso de terapia de reposição hormonal não foi associado a aumento do risco de câncer de mama nas mulheres portadoras de mutações em BRCA1 ou BRCA2. Esse efeito se manteve independentemente do tipo específico de mutação carregada pela paciente.

O achado mais expressivo, porém, diz respeito à formulação utilizada. O uso de TRH com estrogênio isolado foi associado a uma redução de 63% no risco de câncer de mama. Além disso, entre as 43 mulheres que utilizaram a combinação de estrogênio conjugado e bazedoxifeno (um medicamento da classe dos moduladores seletivos do receptor de estrogênio) nenhum caso de câncer de mama foi observado.

O que médicos e pacientes precisam levar em conta na consideração pela reposição hormonal?

Embora os resultados sejam animadores, é fundamental que eles sejam interpretados com cuidado. Por isso, esse dado não deve ser lido como uma autorização indiscriminada para o uso da TRH em qualquer paciente BRCA+.

O primeiro ponto é o histórico oncológico individual. O estudo envolveu mulheres sem histórico prévio de câncer, sem mastectomia bilateral anterior e que se encontravam na menopausa (sendo a maioria delas em menopausa induzida cirurgicamente).

Portanto, os achados não se aplicam, por exemplo, as mulheres que já receberam diagnóstico de câncer de mama, especialmente tumores positivos para receptores hormonais, situação em que a TRH sistêmica continua sendo contraindicada pelas principais sociedades médicas.

O segundo ponto é a formulação. Os dados sugerem que nem toda reposição hormonal carrega o mesmo perfil de risco. A escolha da composição deve ser discutida caso a caso, levando em conta o histórico da paciente, se ela ainda possui útero e quais sintomas precisam ser manejados.

Nesse sentido, o novo estudo é um passo relevante para reforçar a conversa sobre a reposição hormonal em pacientes BRCA+. Conduzir esse diálogo com base em dados e respeito à singularidade de cada caso é tanto possível quanto necessário.

Conheça agora avanços que representam novas alternativas de tratamento não hormonal para as ondas de calor da menopausa.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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