Descubra se o uso de toucas térmicas no câncer de mama traz benefícios

Mulher sentada em poltrona confortável, usando capacete médico, enquanto recebe tratamento intravenoso.

Descubra se o uso de toucas térmicas no câncer de mama traz benefícios

Para muitas mulheres em tratamento oncológico, a queda de cabelo decorrente da quimioterapia vai além de uma questão estética: ela representa uma lembrança constante (e pública) da doença, com efeitos diretos sobre a autoestima, a identidade e a qualidade de vida. Nesse contexto, as toucas térmicas no câncer de mama surgem como uma alternativa para amenizar esse impacto.

Mas como esse recurso funciona, o que os estudos recentes mostram e quais aspectos médicos e pacientes devem levar em conta antes de optar por ele? É o que este artigo busca esclarecer em cada um dos tópicos a seguir.

Como as toucas térmicas funcionam no contexto do câncer de mama?

As toucas térmicas, como o próprio nome sugere, são dispositivos que reduzem a temperatura do couro cabeludo antes, durante e após as sessões de quimioterapia.

Esse resfriamento tem um objetivo específico: diminuir o fluxo sanguíneo na região e, com isso, reduzir a quantidade de agentes quimioterápicos que chegam aos folículos capilares. Na prática, com menor exposição ao medicamento, os folículos ficam mais protegidos, o que pode preservar parte dos fios durante o tratamento.

A touca é posicionada na cabeça da paciente em diferentes momentos da sessão de quimioterapia. O processo geralmente envolve o resfriamento antes da infusão do fármaco, durante toda a aplicação e por um período após o término. Esse intervalo varia conforme o protocolo e o tipo de quimioterápico utilizado.

Existem dois formatos principais disponíveis: sistemas de resfriamento contínuo (conectados a uma máquina) e toucas de gel que precisam ser trocadas ao longo da sessão.

Em resumo, os sistemas de resfriamento contínuo tendem a manter a temperatura de forma mais estável e consistente ao longo de toda a sessão. Já as toucas de gel são mais acessíveis financeiramente, mas exigem trocas frequentes e podem apresentar variações de temperatura que comprometem a eficácia.

Em todo caso, a escolha deve ser orientada pelo oncologista, levando em conta o tipo de tratamento, o protocolo quimioterápico e a disponibilidade em cada serviço de saúde.

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O que um novo estudo diz sobre esse recurso?

Mais recentemente, um estudo apresentado no San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) 2025 trouxe dados especialmente relevantes para o contexto de mulheres jovens com câncer de mama em estágio inicial.

O trabalho acompanhou 265 pacientes com menos de 45 anos que receberam quimioterapia neoadjuvante ou adjuvante (ou seja, antes ou depois da cirurgia), das quais 52% optaram pelo uso do resfriamento do couro cabeludo. Entre as que utilizaram o recurso e responderam ao acompanhamento de um ano, os resultados foram variados:

  • 40% relataram perda inferior a 50% dos fios, dado consistente com a literatura;
  • 28% reportaram perda superior a 75%, evidenciando que o desempenho do procedimento não é uniforme entre as pacientes;
  • 68% das participantes declararam-se satisfeitas ou muito satisfeitas com a experiência;
  • 79% afirmaram que fariam uso do recurso novamente;

Além disso, ao final de um ano, nenhum participante relatou ausência total de crescimento dos fios, e praticamente 80% mencionaram uma recuperação completa ou da maior parte dos cabelos.

O estudo aponta ainda que mulheres com maiores níveis de ansiedade antes do início do tratamento foram mais propensas a optar pelo resfriamento, o que reforça a dimensão psicológica envolvida nessa decisão e a importância de integrá-la ao acompanhamento clínico.

Anteriormente, uma revisão publicada em 2021, no periódico Supportive Care in Cancer, com dados de 27 estudos e 2.202 participantes, encontrou uma taxa de efetividade de 61% no uso de dispositivos de resfriamento do couro cabeludo para proteção capilar em pacientes com câncer de mama submetidas à quimioterapia.

Contudo, a efetividade varia entre 50% e 65%, com resultados mais favoráveis para pacientes que recebem quimioterapia apenas com taxanos (como o paclitaxel e o docetaxel), uma classe específica de quimioterápicos. Para protocolos com antraciclinas (como a doxorrubicina e epirrubicina), os resultados são menos expressivos.

O que médico e paciente precisam considerar sobre os benefícios das toucas térmicas?

A decisão pelo uso das toucas térmicas no câncer de mama é individual e envolve uma série de variáveis que devem ser avaliadas em conjunto.

Do ponto de vista da eficácia, o protocolo de quimioterapia utilizado é um fator determinante. Como já mencionado, os resultados são mais consistentes com taxanos do que com antraciclinas, e o ajuste correto da touca à cabeça é fundamental para que o resfriamento atinja de forma homogênea todo o couro cabeludo.

Assim como acontece com outros recursos, possíveis efeitos colaterais não devem ser ignorados. As pacientes podem relatar:

  • dores de cabeça;
  • tontura;
  • dor no couro cabeludo;
  • sensação intensa de frio;
  • sensação de peso na cabeça;
  • náuseas.

Além disso, a maioria das pacientes relata maior desconforto nos primeiros minutos de uso, com adaptação progressiva ao longo da sessão.

A acessibilidade pode ser outra barreira, como o próprio estudo apresentado no SABCS 2025 aponta. O custo e a disponibilidade dos equipamentos ainda são obstáculos relevantes em muitos contextos. No Brasil, a incorporação desse recurso na rotina oncológica avança, mas de forma dispersa, conforme a assistência disponível para a paciente.

Diante disso, é importante que a decisão sobre o uso de toucas térmicas no câncer de mama seja tomada em diálogo aberto entre a paciente e sua equipe de saúde, levando em conta não apenas os aspectos técnicos, mas também o impacto emocional que a perda dos fios representa para cada mulher.

Confira agora como o uso da crioterapia de mãos e pés na quimioterapia pode amenizar determinados efeitos colaterais em pacientes com câncer de mama.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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