Radioterapia e reconstrução mamária: como o tratamento com radiação interfere na técnica para recompor a aparência das mamas
Uma das decisões mais delicadas que envolvem o tratamento do câncer de mama é a escolha do momento e da técnica para a reconstrução da aparência dos seios. E, quando o uso da radiação faz parte do protocolo terapêutico, essa decisão se torna ainda mais complexa. Por isso, a relação entre radioterapia e reconstrução mamária merece atenção redobrada.
Essa interação não representa uma incompatibilidade absoluta. Contudo, a partir do momento em que a terapia altera de forma significativa os tecidos da região, isso precisa ser considerado em cada etapa da jornada da paciente.
Qual é o impacto da radioterapia no câncer de mama sobre os tecidos saudáveis do organismo?
A radioterapia é um componente fundamental do tratamento multimodal do câncer de mama. Por isso, a Sociedade Norte-Americana do Câncer mostra que ela reduz o risco de recorrência local e em linfonodos próximos. Assim, ela contribui para a melhora da sobrevida a longo prazo.
No entanto, ao mesmo tempo em que combate as células tumorais, a radiação inevitavelmente afeta os tecidos saudáveis ao redor. Os efeitos sobre os tecidos podem ser divididos em precoces e tardios. Entre os precoces (ou seja, que surgem pouco depois do tratamento) estão vermelhidão, inchaço e descamação da pele.
Já as alterações tardias são as que mais impactam o planejamento cirúrgico. As principais são:
- fibrose do tecido;
- espessamento e endurecimento da pele;
- perda progressiva de volume;
- retração da cicatriz na região tratada;
- dano microvascular.
Na prática, isso significa que uma mama que passou por radioterapia responde de forma diferente a uma cirurgia de reconstrução em comparação com mamas que não foram irradiadas.
Ou seja, é preciso sempre reforçar que a radioterapia como parte do tratamento do câncer aumenta significativamente a complexidade da reconstrução mamária, conforme aponta publicação no periódico Annals of Breast Cancer.
Leia também: O que é e como funciona a radioterapia intraoperatória da mama?
Quais são as abordagens de reconstrução mamária após a radioterapia?
De forma geral, a reconstrução mamária pode ser realizada com implantes de silicone (reconstrução aloplástica) ou com tecido retirado da própria paciente (reconstrução autóloga), sendo possível, em alguns casos, combinar as duas abordagens.
A escolha entre elas depende de fatores como o estado geral de saúde da paciente, sua anatomia, as características do tumor e, de forma determinante, a necessidade ou não de radioterapia.
Reconstrução com implante
É a técnica mais utilizada mundialmente pela sua relativa simplicidade técnica e pelo menor tempo de recuperação. Envolve a colocação de um expansor tecidual, que gradualmente aumenta o volume da mama, seguido pela troca por um implante definitivo de silicone. Em mamas não irradiadas, os resultados costumam ser satisfatórios.
Reconstrução com tecido autólogo (retalhos)
A abordagem utiliza tecido vivo da própria paciente, geralmente do abdômen, das costas (grande dorsal) ou da coxa.
Por trazer consigo sua própria irrigação sanguínea, o tecido autólogo tolera melhor os efeitos tardios da radiação, o que torna essa abordagem frequentemente preferida nos casos em que há indicação de radioterapia. No entanto, trata-se de uma cirurgia mais complexa e com maior tempo de recuperação.
Adicionalmente, mesmo com tecido próprio, podem ocorrer efeitos indesejados como fibrose, contratura da área reconstruída e necrose gordurosa.
Por que a radioterapia pode contraindicar a reconstrução imediata com implante?
Sempre que possível, a reconstrução imediata (realizada junto da mastectomia) é preferível por minimizar o impacto psicológico da perda da mama.
No entanto, quando há indicação de radioterapia no pós-operatório, a reconstrução imediata com implante passa a ser uma decisão que exige uma avaliação muito cuidadosa.
O principal problema é a contratura capsular: quando um implante de silicone é colocado no corpo, forma-se naturalmente uma cápsula de tecido ao redor dele. Em condições normais, essa cápsula é fina e flexível.
Mas, quando exposta à radioterapia, ela pode se tornar espessa, rígida e retrátil, distorcendo a forma da mama reconstruída, causando dor e, em casos mais graves, levando à exposição ou extrusão do implante.
Além disso, pacientes que realizam reconstrução com implante em mama previamente irradiada apresentam maior probabilidade de infecção, necessidade de reoperação e falha reconstrutiva.
A expansão tecidual também é mais difícil em uma mama irradiada. A pele perde elasticidade e a cicatrização mais precária aumenta o risco de infecção. Por isso, há consenso de que, nos casos em que a radioterapia pós-operatória é indicada, a colocação de implante definitivo simultâneo à mastectomia deve ser avaliada com muito critério pela equipe médica.
De qualquer maneira, quando se fala em radioterapia e reconstrução mamária, nenhuma opção é considerada uma contraindicação absoluta, seja a reconstrução imediata ou tardia. Em todos os casos, a equipe médica pondera os riscos de complicações e o potencial impacto no resultado estético, informando a paciente de forma clara sobre o que esperar.
Aproveite e entenda melhor agora quais os impactos da radioterapia sobre a pele e o que pode ser feito para amenizá-los.