Qualidade de vida no câncer de mama: estudo mostra como intervenção digital pode ampliar bem-estar de pacientes jovens

Mulher respondendo no aplicativo dados de sua saúde

Qualidade de vida no câncer de mama: estudo mostra como intervenção digital pode ampliar bem-estar de pacientes jovens

A preocupação com a qualidade de vida no câncer de mama deve considerar como a fase da vida em que a mulher se encontra pode influenciar as queixas apresentadas Isso significa avaliar impactos em aspectos como vida sexual, fertilidade e saúde emocional, entre outros fatores que contribuem para o bem-estar.

Foi justamente nesse cenário que um estudo apresentado na edição de 2025 do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS 2025) chamou atenção. Os resultados trouxeram evidências sobre o potencial de intervenções com ferramentas digitais para melhorar a qualidade de vida de sobreviventes jovens de câncer de mama. Nos tópicos abaixo, você poderá entender melhor quais impactos isso pode ter.

A preocupação com a qualidade de vida em pacientes com câncer de mama em todas as fases da vida

O câncer de mama costuma ocupar o posto de tumor maligno mais frequente entre as mulheres, excluído o de pele não melanoma. Como referência, o Instituto Nacional do Câncer estima que entre 2026 e 2028 serão identificados mais de 78 mil novos casos, para cada ano, no Brasil.

Se antes o impacto da doença se concentrava entre mulheres mais velhas (geralmente após a menopausa) isso parece estar mudando. Um estudo publicado em março de 2026 na revista The Lancet Oncology,com dados de mais de 200 países, aponta que a incidência de tumores mamários entre mulheres dos 20 aos 54 anos cresceu 29% desde 1990. Enquanto isso, a tendência de diagnósticos após os 55 anos permaneceu mais ou menos a mesma.

É claro que esse aumento no número de casos esteve acompanhado de maior capacidade de detecção precoce e de avanços no tratamento. Com isso, cada vez mais pacientes conseguem superar a doença.

Contudo, o impacto disso vai além do período de acompanhamento necessário para combater o tumor. Mesmo após a conclusão das terapias principais, muitas pacientes convivem por anos com sintomas físicos e emocionais que afetam diretamente a qualidade de vida. Entre eles estão:

  • Fadiga persistente;
  • Alterações do humor;
  • Problemas sexuais;
  • Dificuldades cognitivas;
  • Dores articulares (neuropatias);
  • Receio constante de uma recidiva.

Além dos efeitos do próprio tratamento, mulheres jovens diagnosticadas com câncer de mama muitas vezes estão em plena construção de carreira e de seus relacionamentos, e frequentemente têm planos de maternidade.

Portanto, a preocupação com a qualidade de vida desses pacientes é uma questão a ser abordada ao longo de toda a jornada de recuperação.

Leia também: Os cuidados necessários com as terapias complementares no câncer de mama

O possível papel de intervenções digitais na promoção de uma vida melhor

Nesse cenário, o estudo apresentado no SABCS 2025 testou uma ferramenta digital chamada YES (sigla para Young, Empowered & Strong, algo como Jovem, Empoderada e Forte, em português), desenvolvida especificamente para sobreviventes jovens de câncer de mama. O objetivo é oferecer suporte acessível durante esse novo período.

A ferramenta funciona por meio de um aplicativo, no qual as participantes respondiam mensalmente a questionários sobre sintomas e preocupações. Com base nessas respostas, o sistema oferecia informações personalizadas, links para recursos relevantes e orientações práticas.

Além disso, a plataforma incluía uma ferramenta de escrita expressiva (uma técnica terapêutica para expressar as próprias emoções) e uma sala de bate-papo para troca de experiências. As conclusões foram obtidas por meio de ensaio clínico randomizado, considerando os seguintes parâmetros:

  • Foram recrutadas 360 mulheres com menos de 39 anos diagnosticadas com câncer de mama em estágios 0 a III;
  • Após a avaliação inicial, as participantes foram divididas aleatoriamente em dois grupos: 179 tiveram acesso à ferramenta YES e 181 seguiram o cuidado habitual;
  • A qualidade de vida foi medida por instrumento que avaliava tanto dimensões gerais, como bem-estar emocional, fadiga, dor e relações sociais, quanto aspectos específicos do câncer, como preocupação com recidiva, alterações na aparência e impacto na satisfação sexual.

Após seis meses, o grupo que utilizou o YES apresentou evolução mais favorável nos indicadores de qualidade de vida em comparação a quem não teve acesso ao recurso.

Entre os ganhos mais notáveis estiveram o alívio de sintomas relacionados a problemas vaginais e nos braços, como linfedemas, que são queixas frequentes entre sobreviventes.

Contudo, a intervenção não demonstrou impacto significativo sobre sintomas de menopausa, ansiedade ou depressão, dimensões que tiveram melhorias sem diferença estatisticamente expressiva.

O que esses resultados podem indicar na prática para médicos e pacientes

Embora promissores, vários passos precisam ser percorridos para que a disponibilidade desse tipo de ferramenta se torne realidade. A validação dessas ferramentas em contextos mais diversos (incluindo localidades com menor renda e menor letramento digital) será fundamental para garantir avanços equitativos.

Também é necessária a evolução da ferramenta para incluir melhores intervenções em dimensões cujo cuidado ainda se mostra mais desafiador, como é o caso da saúde mental, uma limitação importante do estudo em questão.

Em suma, os dados do estudo refletem um problema bem conhecido. Depois que o tratamento principal termina, muitos pacientes ficam com lacunas importantes no acompanhamento do seu bem-estar.

As consultas diminuem, os sintomas persistentes são frequentemente ignorados e não raro o acesso presencial a recursos de suporte fica limitado. Nesse contexto, uma ferramenta digital de saúde bem desenvolvida pode preencher parte desse vazio.

Para os médicos, o estudo reforça a importância de abordar ativamente a qualidade de vida durante as consultas de acompanhamento, mesmo quando a paciente não apresenta queixas espontâneas.

Questões relacionadas à saúde sexual, fertilidade, saúde mental e adesão ao tratamento hormonal são frequentemente relegadas ao segundo plano, mas têm impacto direto nos resultados a longo prazo.

Acima de tudo, médicos e pacientes devem ter sempre em mente que a vida após a doença não precisa ser inevitavelmente pior. Com atenção, suporte especializado e diálogo franco, a qualidade de vida diante do câncer de mama pode ser uma prioridade durante e depois do tratamento.

Confira agora como companheiros(as) e familiares podem ajudar a amenizar o impacto emocional do câncer de mama e também ser parte do cuidado nesse momento difícil.

Médica mastologista especializada em reconstrução mamária. Além de sua prática clínica, Dra. Brenda atua como mastologista no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é preceptora da residência médica de Mastologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Mastologia. | CRM-SP 167879 / RQE – SP Cirurgia Geral: 81740 / RQE – SP Mastologia: 81741

ps.in@hotmail.com

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